O ódio que ninguém viu
Os jovens que cometeram o massacre na escola de Suzano eram "esquisitÃ┬Áes" antissociais, mas quase núo deram pistas da atrocidade que planejavam
UNHA E CARNE - Guilherme ( esq.) e Luiz Henrique (no detalhe), os assassinos de Suzano: amigos da infncia ao suicdio(//Reproduo)
um desses eventos que ao mesmo tempo exigem e desafiam explicaes. Na manh da quarta-feira 13, Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, e Guilherme Taucci Monteiro, de 17, entraram numa locadora de automveis e depois na escola que ambos frequentaram em Suzano, no interior de So Paulo, e chacinaram oito pessoas o dono da revendedora de carros, duas funcionrias do colgio e cinco alunos, cujas vidas foram to precocemente ceifadas(veja a reportagem).Guilherme entrou na escola e passou a atirar a esmo, como mostram as imagens captadas pelas cmeras. Luiz Henrique, sem arma de fogo, agiu como um escudeiro do amigo, tentando deter alunos que fugiam com uma machadinha deu golpes em corpos j no cho e depois a cravou em um dos alunos, que sobreviveu. Uma tragdia que chocou o Brasil, um pas que, desgraadamente, comea a conviver com perturbadora frequncia com um mal que se imaginava quase exclusivo dos americanos(veja a reportagem).Uma monstruosidade, tuitou o presidente Jair Bolsonaro, depois de um longo silncio de seis horas.
A dupla de assassinos concentrava elementos comuns aos que cometem esse tipo de barbrie: eles se ressentiam da zombaria dos colegas de escola, no tinham perspectiva profissional e viviam em isolamento social, jogando videogames e frequentando fruns de internet nos quais se compartilham dios variados e dicas de como obter armas, tema que exercia fascnio sobre os assassinos. No entanto, conhecidos e vizinhos no notaram que as frustraes acumuladas dos dois estavam para explodir da forma mais vulcnica e brutal. Houve indcios de que preparavam um show de horrores, mas ningum os levou a srio at ser tarde demais.
A ESMO -Imagem da cmera da Escola Raul Brasil: sem hesitao, Guilherme saca o revlver e faz suas primeiras vtimas(//Reproduo)
No dia do massacre, Luiz Henrique de Castro j se encontrava de p s 5h30, a postos para trabalhar com o pai, arrancando o mato das caladas de Guaianazes, bairro na Zona Leste de So Paulo. Ambos se dirigiam estao de trem quando o rapaz alegou estar se sentindo mal. Disse ao pai que passaria o dia em casa, e foi se encontrar com Guilherme, seu vizinho de rua num bairro de classe mdia em Suzano. Juntos, os dois fizeram os preparativos finais de um plano que j vinha de longa data e que, na viso deles, os alaria glria. Por volta das 7 horas, Guilherme publicou em seu Facebook fotos suas com uma balaclava de caveira e um revlver calibre 38. Depois, colocou no cinto trs jet loaders (municiadores rpidos) e uma machadinha. Luiz pegou um arco e flecha, uma balestra e mais uma machadinha. Os dois carregaram trs mochilas com seis coquetis molotov, seis granadas de fumaa, um simulacro de explosivo e um caderno. Saram com a ambio de superar o massacre de Columbine, nos EUA, que deixou quinze mortos, entre eles os dois assassinos, e se tornou um marco nesse tipo de crime.
A primeira porta em que bateram foi a de um vizinho antigo desafeto, que, por sorte, no atendeu. Em seguida, eles entraram no Onix branco que Luiz Henrique alugara no dia 21 de fevereiro. Foram at a Jorginho Veculos, concessionria e lava-rpido que pertencia ao tio de Guilherme, Jorge Antnio a primeira vtima. Guilherme conhecia bem o local, pois havia trabalhado ali lavando e lustrando carros, at ser demitido pelo tio por causa de um desentendimento. O adolescente foi at o escritrio do tio. Atirou nele. Saiu correndo. Luiz Henrique o esperava no carro. Cumpriram ali a etapa inicial do plano.
BRUTALIDADE O fiel escudeiro: Luiz Henrique no contava com uma arma de fogo. Atacou os alunos com machadinha(//Reproduo)
A prxima parada, a poucas quadras dali, foi a escola estadual Raul Brasil, onde os dois haviam estudado. Pararam em frente da entrada. Conforme mostram imagens de cmeras de segurana, Guilherme foi o primeiro a sair do carro. Tranquilo, demorou alguns minutos para pegar toda a bagagem. Entrou na escola como um aluno comum, com um caderno embaixo do brao. De repente, largou-o no cho, sacou o revlver e ps-se a atirar a esmo. Luiz Henrique chegou correndo logo depois e comeou a desferir machadadas em quem viu pela frente inclusive nos corpos cados no cho. Foi um ataque sem alvo definido, e sem hesitao. Guilherme carregou a arma, desceu as escadas e atirou em mais estudantes nos corredores. Luiz Henrique foi atrs, como num game macabro, terminando o servio a machadadas. Estudantes e funcionrios em pnico correram para todos os lados. As funcionrias encarregadas da merenda resguardaram cinquenta alunos na cozinha, barricando a porta com um freezer e mesas. Tentei pr o mximo de gente que eu consegui para dentro. Eram como meus filhos, diz a cozinheira Silmara Morais, tremendo e chorando. Outros se refugiaram nas salas de aula, onde professores bloquearam as portas com armrios e carteiras. Os dois assassinos batiam na porta: Se no sarem, vocs todos vo morrer. A dupla buscava os coquetis molotov na mochila quando trs policiais se aproximaram da escola. Oplano foi abortado. Encurralados, os dois morreram Guilherme atirou em Luiz Henrique e em seguida na prpria cabea. Segundo uma testemunha ouvida pela polcia, o plano vinha sendo concebido havia mais de um ano.
Ainda estamos investigando a motivao. Mas o que se sabe at agora que eles queriam chamar ateno. Fazer algo mais brutal do que o atentado em Columbine, diz o delegado Jaime Pimentel, responsvel pelas investigaes. Um amigo dos assassinos ouviu deles a inteno de superar o massacre na escola americana. Colegas que esbarraram com os atiradores na semana passada disseram a VEJA terem sido avisados. Fiquem espertos, disse Guilherme a um deles, que pediu para no ser identificado. Como os dois j haviam feito ameaas antes, ningum os levou a srio. Colegas dizem que Guilherme, em particular, era assediado na escola com piadas grosseiras sobre a vida sexual da me, dependente qumica, s quais ele respondia com fria: Vou matar todos vocs.
AO ATAQUE -Caderno de Guilherme: em mau portugus, estratgias de videogame para deixar o adversrio sem defesa(//Reproduo)
Para a me, Guilherme dizia que sofria bullying por causa das espinhas e, por isso, parou de estudar. Ela, no entanto, foi uma figura ausente na criao do filho. Quem cuidou dele por toda a vida foi a av, que morreu, no fim do ano passado, de infarto. Nos ltimos meses, Guilherme era assistido pelo vivo de sua av (no era seu av biolgico). Esse homem, que no quis se identificar, disse a VEJA que Guilherme era um menino bonzinho que nunca dava trabalho. Luiz Henrique vinha de uma famlia mais estruturada. Morava com o pai, a me, o irmo e os avs que, segundo os vizinhos, at a noite de quarta-feira no sabiam ainda da morte do neto nem da atrocidade que ele cometera. Apesar da diferena de idade, 25 e 17, os dois eram amigos desde a infncia. provvel que eles tivessem caractersticas semelhantes, e que aprofundassem os desejos agressivos um do outro, diz o psiclogo forense Antnio de Pdua Serafim, do Hospital das Clnicas de So Paulo. Nesses casos, tambm provvel que um exera poder de influncia sobre o outro. A gente pode especular que Guilherme tenha sido o idealizador do ataque.
CULTO S ARMAS Desenho de Guilherme: extremismo(//Reproduo)
Os dois rapazes foram descritos por vizinhos e colegas como calados, fechados e esquisites. Na infncia, eram companheiros de pelada na rua. Quando cresceram, tornaram-se inseparveis no videogame. O aposentado Cesar Abidel, que mora entre a residncia de Guilherme e a de Luiz Henrique, no notou nada de estranho na noite anterior ao massacre. Naocasio, troquei uma ideia com eles. At brincaram comigo sobre futebol, lembra. Os vizinhos recordam dois episdios de crise de raiva da dupla. Em um deles, Guilherme chutou seu computador porque estava travando. Em outra, Luiz Henrique xingou o pai e bateu nele no meio da rua. Alm desses dois momentos, nada que suscitasse maiores preocupaes.
Com ensino mdio incompleto, os dois dedicavam-se a subempregos. Luiz era auxiliar de jardinagem. Guilherme assava espetinhos em um aougue. Nos momentos de folga, frequentavam a Lan House rea 5.1, perto da casa deles. Ali, passavam horas jogando Call of Duty, Counter Strike e Mortal Kombat. Os frequentadores se lembram de que eles eram os que mais gritavam vou matar voc, filho da p oque no incomum quando se jogam games de guerra. Em fevereiro, um sinal sinistro de ideias extremistas foi percebido por Tatiane Motta, que trabalhou na lan house: Vi Luiz com um colar com a cruz de ferro. No dia seguinte, quem estava com o pingente era o Guilherme. A cruz de ferro uma condecorao militar nazista.
NA INTERNET PROFUNDA -Provvel mensagem dos assassinos em um frum de dio: Partiremos como heris(//Reproduo)
No Facebook, o mais jovem dos assassinos apresentava-se como Guilherme Alan. A pgina, depois apagada pela prpria rede, trazia mensagens de culto s armas e de apoio ao ento candidato Jair Bolsonaro. As ideias realmente extremistas dos dois jovens, porm, se escondiam no submundo da internet. Logo aps o massacre, comearam a pipocar em fruns de dio na deep web (a rea profunda da internet, onde se ocultam usurios que desejam fugir de rastreamento) reprodues de supostas mensagens dos dois. Em uma das publicaes, um usurio no identificado exibe uma mensagem de agradecimento atribuda a um dos atiradores: Esperamos do fundo dos nossos corao (sic) no cometer este ato em vo. () Nascemos falhos mas partiremos como heris. No frum Dogolachan, que j foi alvo da Polcia Federal por disseminar a misoginia, o racismo e o nazismo, o massacre foi comemorado. A Polcia Civil apreendeu computadores na casa dos atiradores e na lan house para aprofundar investigaes. Segundo os investigadores, as machadinhas, o arco e flecha, a balestra e outros equipamentos foram comprados em diversos locais, inclusive pela internet, no ano passado; e o revlver calibre 38, que estava com o registro raspado, deve ter vindo do mercado negro. So mais evidncias de que o massacre foi longamente planejado. A polcia busca um terceiro jovem que pode ter testemunhado o planejamento do crime ou at contribudo para esses planos.
Os investigadores tambm pegaram um caderno encontrado ao lado do corpo de Guilherme. Nele, h desenhos de fantasmas, mscaras de terror e armas. Duas pginas em portugus precrio fassam no lugar de faam, por exemplo chamaram a ateno da polcia: descreviam uma ttica de videogame para um ataque rpido, no qual o adversrio ficaria sem tempo de fazer muitas defesas. Em outra passagem, Guilherme cita uma duvidosa Bblia Satnica que recomendava destruir quem cruzasse seu caminho. Esse tipo de pessoa escolhe o crime como fantasia, e essas fantasias vo evoluindo com o tempo. Mas difcil que eles levantem suspeitas, diz o psiclogo Pdua Serafim. Vistos agora, no conjunto, os elementos que integram o perfil de Guilherme e Luiz Henrique isolamento, bullying na escola, interesse por fruns de dio, fascnio por armas, fixao em jogos parecem compor o retrato bvio dos autores de um massacre. Mas outros tantos jovens se encaixam nesse terreno perigoso de frustrao, fragilidade e ressentimento, e no cometem crimes. Eis o desafio da explicao.





