Pedro Juan Caballero - 7 de junio de 2026
el mundo

Autismo: entenda os impactos do diagnóstico tardio em adultos

Publicado el 03/04/2025

Dificuldades de convivência e poucos relacionamentos


Desde que pode se lembrar, a nutricionista Beatriz Lamper Martinez, de 48 anos, sempre apresentou caractersticas distintas e que, at pouco tempo, no podiam ser facilmente explicadas.

Na infncia, a me se referia a ela como uma criana excessivamente sensvel e madura para a idade, que se envolvia emocionalmente com problemas de pessoas mais velhas.

Na adolescncia, ela teve poucos melhores amigos, o que se mantm ainda hoje. Durante a vida adulta, foram muitas as dificuldades de convivncia e poucos relacionamentos duradouros.

Em setembro do ano passado, Beatriz foi diagnosticada com transtorno do espectro autista (TEA). Agncia Brasil, ela disse que buscou o diagnstico porque, desde 2013, era tratada para transtornos como depresso e ansiedade, mas sem sucesso. Muda medicao, aumenta medicao, mas eu nunca ficava estvel.

Foi um relacionamento com o pai de uma criana com TEA que a fez abrir os olhos para caractersticas prprias que coincidiam com o quadro em questo. Ao longo dos meses, comecei a me identificar com aquelas informaes.

Foram oito meses tendo acesso a tudo isso. Comecei a ler a respeito, procurar mais coisa. Resolvi ir atrs de um psiquiatra que entendesse do assunto. Inicialmente, me deram um diagnstico clnico de TEA. No fundo, eu j sabia, mas fui fazer testes neuropsicolgicos. Procurei uma clnica, j que uma bateria de exames, perguntas, desenhos, entrevistas. E veio a confirmao de que sou mesmo autista nvel 1 de suporte. O diagnstico tambm acusou altas habilidades, com QI [quociente de inteligncia] acima da mdia.

Com o diagnstico, Beatriz pode entender que as crises que se manifestaram durante boa parte da vida no eram pura e simplesmente causadas por transtornos como ansiedade ou depresso. Na literatura, mulheres que tm diagnstico tardio de TEA, em sua maioria, desenvolvem ansiedade e depresso na vida adulta. Atualmente, as crises, segundo ela, se mantm presentes, mas so compreendidas de uma forma completamente diferente diante do diagnstico.

Hoje, por exemplo, estou muito, muito cansada. No consigo me levantar, estou em crise. Antes, eu achava que isso era o incio de uma depresso, uma recada. Hoje, sei que no estou tendo uma recada, estou tendo uma crise. Preciso descansar, ficar quieta, dormir e, com isso, vou melhorar. O diagnstico, pra mim, trouxe uma certa libertao pra poder entender porque tenho sempre tantas crises, tantos altos e baixos.

Quando recebi o diagnstico, foi um certo alvio. Pra comear a me entender de uma outra forma. Antes, eu pensava: Que sentido tem a vida? Pra qu viver desse jeito, sempre tendo crises, com vontade de ficar quieta, de no querer fazer as coisas? Com o diagnstico, a gente pensa: Eu sou s diferente e preciso aprender a lidar com isso. No incio, foi um alvio. Mas, logo em seguida, j vieram vrias questes sociais muito difceis de lidar, disse, ao relatar que, entre os membros da famlia, apenas a irm sabe do diagnstico.

A sociedade no est preparada, como um todo. Pessoas muito prximas de mim foram bem resistentes ao meu diagnstico, o que me chocou muito. Mas a gente tem que entender, a vida assim.No trabalho, pedi pra fazer mudanas de rotina porque eu trabalhava em um ambiente com muito estmulo sensorial. Minha chefe direta me mudou de rea, fui pra um setor administrativo mais calmo, mais tranquilo. O trabalho em si foi adaptado. E entrei com um pedido de reconhecimento de PCD [pessoa com deficincia] pra ter meus direitos, explicou.

Cecilia Avila

A publicitria Cecilia Avila, de 24 anos, sempre apresentou sensibilidade extrema a sons e texturas, principalmente de roupas. Quando criana, reclamava com a me de etiquetas e tecidos que pinicavam.

Ainda na infncia, tambm detestava que penteassem seu cabelo. Ficava cheio de ns e, pra desembaraar depois, era um sofrimento, lembra.

Durante a adolescncia, teve dificuldade pra fazer amigos e pra compreender piadas e ironias, mesmo em tirinhas simples usadas nas aulas de lngua portuguesa.

No ano passado, Cecilia tambm foi diagnosticada com TEA. Eu no me encaixava em algumas relaes sociais. Sempre fui mascarando essas coisas. At que, adulta, uma colega que estudou comigo comentou que teve o diagnstico. Conversei com ela e, assim, comeou a minha busca. Querendo ou no, o diagnstico tardio impacta porque a gente cresceu mascarando os nossos traos. Se no mascarava, as pessoas falavam que era frescura, s uma sensibilidadezinha que depois passa, birra ou drama.

Voc cresceu de uma forma e, quando vem o diagnstico, voc sente: Nossa, finalmente consigo me entender. Sei o que tenho e no fui s uma criana chata, fresca, dramtica, que no queria vestir as coisas. Por outro lado, a gente fica duvidando: Ser que eu realmente sou autista? A gente cresceu ouvindo coisas e, quando vem a explicao, a gente fica meio na dvida. Mas, ao mesmo tempo, um alvio.

Para a publicitria, um combo de fatores normalmente leva ao diagnstico tardio de TEA, incluindo falta de informao, dificuldade de acesso aos sistemas de sade, dificuldades financeiras e falta de apoio familiar. Muitas vezes, os filhos so diagnosticados com TEA e os pais, quando vo pesquisar para entender os filhos, acabam se vendo muito naquelas caractersticas. H muitos relatos assim, disse.

Acredito que o diagnstico, mesmo sendo tardio, importante. Voc passa a se conhecer, entende os seus limites, entende at aonde pode ir, quanto tempo voc consegue ficar numa interao social, quanto tempo consegue suportar determinados barulhos ou luzes. E envolve comidas tambm, j que o autismo traz uma seletividade alimentar que pode variar muito de caso pra caso.

Cabe s pessoas entender que no frescura. Ai, barulho alto. No frescura, est realmente incomodando. Ai, no come tal coisa. No frescura, que eu realmente no consigo comer. Nesse sentido, o diagnstico, mesmo que tardio, ajuda, porque a gente comea a se entender e ver que, l na infncia, no era uma criana fresca, chata ou birrenta e que havia uma explicao pra voc agir como agia. O diagnstico tardio pode ajudar na qualidade de vida pra que, a partir da, ela comece uma vida mais tranquila e dentro das limitaes dela, Cecilia.

Especialista

Para o psiclogo Leandro Cunha, o diagnstico de TEA, ainda que tardio, fundamental no sentido de permitir que o indivduo compreenda melhor suas caractersticas e dificuldades, facilitando o acesso a tratamentos e apoio adequados. Isso pode melhorar significativamente a qualidade de vida do adulto, provendo bem-estar emocional e incluso social no s para ele, mas para as pessoas ao redor dele.

Segundo ele, alguns fatores contribuem para o diagnstico tardio, sobretudo em adultos. A criana apresenta a caracterstica, em si, desde cedo, algo que muito observado nos dias de hoje. Mas, nos adultos, trata-se da prpria falta de conhecimento e de conscientizao, tanto da prpria pessoa como de quem est ao redor, alm de crenas culturais que minimizam ou deixam um pouco de lado esses sinais. 'O adulto no pode ter isso ou aquilo', disse.

H tambm o prprio estigma social associado ao TEA. Alm disso, alguns sintomas sutis podem ser confundidos com outras condies, como TOC, TDAH, contou. De acordo com o especialista, muitos diagnsticos tardios de TEA esto associados ao nvel 1 de suporte, popularmente conhecido como autismo leve. Indivduos nesse nvel podem apresentar dificuldades bem sutis na interao social e na comunicao, levando ao no reconhecimento dos sinais, nclusive durante a infncia.

A partir do diagnstico, ainda que tardio, o caminho a ser seguido, segundo Cunha, simples: buscar informaes detalhadas e sobre como o TEA afeta a vida adulta, alm de apoio profissional por meio de terapeutas ocupacionais, aconselhamento psicolgico e mesmo grupos de apoio e comunidades que compartilham da mesma experincia.

A ausncia de diagnstico e a falta de suporte adequado podem levar a dificuldades na vida adulta, incluindo dificuldades acadmicas; problemas no ambiente de trabalho, afetando o desempenho profissional; dificuldades nas relaes interpessoais e sociais; maior incidncia de transtornos de humor e ansiedade. Por qu? Porque a pessoa no sabe nem o que tem, no tem o diagnstico. Est tudo sendo confundido, gerando dificuldades na vida adulta, concluiu.

pontaporaemdia.com

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