Pedro Juan Caballero - 4 de agosto de 2026
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As atrocidades do Mais Médicos

Publicado el 07/12/2018

Depoimentos, áudios e trocas de mensagens Ã┬ás quais ISTOÃÔÇ░ teve acesso revelam que médicos cubanos viviam quase como escravos no Brasil. Vigiados por agentes enviados por Havana, núo podiam sair de um município a outro sem autorizaÃ┬ºúo mesmo nas folgas, eram assediados sexualmente e até extorqu


Em 29 de novembro, a doutora Dayaimy Gonzlez Valon, 38 anos, integrante do programa Mais Mdicos, anunciou em transmisso ao vivo pelo youtube uma deciso, segundo ela, de carter irrevogvel: preferia permanecer no Brasil a regressar ao flagelo da ditadura cubana. uma deciso da qual no me arrependo, desabafou ela, que havia desembarcado no Brasil no dia 12 de outubro de 2016, com destino ao municpio de Paranatinga, interior de Mato Grosso, em substituio a um colega. Nesses dois anos, alm de atender aos moradores da cabeceira municipal, a mdica viajou exaustivamente pela regio para atender populao de cinco assentamentos rurais e duas comunidades indgenas.

Apenas vinte minutos aps a declarao de ruptura, a mdica recebeu a ligao do Coordenador Estadual da Brigada no estado de Mato Grosso, Dr. Leoncio Fuentes Correa. A conversa que comeou amena rapidamente degenerou para o tom ameaador. Pense bem doutora, eu apenas sugiro () no final, se voc ficar aqui, voc sabe que no vai entrar em Cuba por oito anos. E voc tem famlia em Cuba () e se algo acontecer com um de seus familiares, que tomara no acontea, voc no poder entrar no pas (), afirmou. Se voc no entrar nesse voo (marcado para 7 de dezembro), eu te reportarei por abandono do posto. Quando eu preencher essa ficha, ela automaticamente vai para a imigrao e em oito anos voc no poder ir a Cuba. Isso no tem retorno, advertiu o coordenador numa ligao de sete minutos gravada pela mdica, qual ISTO teve acesso.

Apesar de no ser uma norma escrita, os cubanos que saem do pas enviados pelo governo para as chamadas misses internacionalistas, sejam mdicos, esportistas ou maestros, e decidem abandonar os contratos laborais, so banidos e proibidos de voltar durante o perodo de oito anos. O castigo arbitrrio e busca punir de maneira exemplar queles que ousam desobedecer. Nega o direito de entrar na nossa prpria terra e o direito de conviver com nossos familiares, lamenta a Dra. Nora Salvia, que saiu da Misso Bairro Adentro na Venezuela em 2014 e uma das fundadoras do Grupo NoSomosDesertores, que pressiona pela suspenso da norma.

Ele me ofendia, me humilhava e ameaava me desligar. Depois,
oferecia passagem para relaxar um pouco no hotel com ele

Mdica, vtima de assdio sexual praticado por agente cubano

Lencio Fuentes um dos 36 consultores internacionais contratados pela Organizao Pan-Americana da Sade (OPAS), ligada Organizao Mundial da Sade (OMS), para o binio 2018-2019. Todos, sem exceo, funcionrios cubanos com cargos nas instituies de sade em Cuba. Assim como tambm cubano o representante da entidade regional no Brasil, Joaquin Molina, que, antes de ingressar na OPAS, em 1991, ocupara altos cargos no Ministrio de Sade da ilha caribenha. Travestidos de consultores internacionais, os funcionrios cubanos compuseram e ainda compem no Brasil ao menos enquanto aqui estiverem uma rede de vigilncia montada pelo regime para exercer controle total sobre os profissionais enviados pela ilha tratados por esses agentes cubanos quase como escravos desde que desembarcaram em solo brasileiro. Emails, mensagens e depoimentos obtidos por ISTO lanam luz sobre a atuao desta rede de verdadeiros capatazes em Santa Catarina, Rio Grande Sul, Rio de Janeiro, Bahia, Mato Groso, Gois e Par. Era para esses consultores da OPAS que os mdicos deviam informar sobre cada passo. Desde visitas familiares que receberiam de Cuba at meras sadas para outros municpios fora do horrio do expediente. Os agentes cubanos controlavam para que a permanncia dos parentes no Brasil no excedesse trs meses, sob pena de o profissional ser desligado do programa Mais Mdicos. Segundo o relato de uma mdica cubana, para comprovar o retorno para Cuba do marido, foi exigido o envio do carto do embarque. No caso de viagens para fora dos municpios de atuao, mesmo nas folgas, mdicos relataram que deviam ter autorizao do coordenador para se deslocar, informando o endereo onde ficariam. Caso contrrio, eram punidos.

Controle autoritrio

Mdicos cubanos ouvidos por ISTO que decidiram romper com o regime e ficar no Brasil denunciaram outras situaes de autoritarismo, descaso, abuso de poder e at assdio sexual por parte dos coordenadores cubanos. Ele me fez sofrer muito, me ofendia, me humilhava, me chamava de indisciplinada e ameaava analisar meu caso e me desligar, relata uma mdica que foi vtima de assdio sexual do seu superior estadual durante um longo perodo. Passei a gravar as conversas, relata. O coordenador, segundo ela, oferecia pagar a passagem para a capital do estado, a mais de 380 km da regio onde a mdica exercia, para relaxar um pouco no hotel com ele. Aflita com a situao, a mdica decidiu contar para uma colega em outro municpio, que confessou ter recebido os mesmos apelos e afagos do coordenador.

O cubano Alioski Ramirez Reyes rompeu com o regime em 2017. Ao finalizar o contrato de trs anos no Mais Mdicos, tambm optou por no voltar ao seu pas. E vivenciou a presso dos emissrios de Havana. Tive a amarga experincia de receber a senhora Amaylid Arteaga Garca (assessora estadual) na minha casa. Fez uma serie de denncias e ameaas porque, supostamente, meu nome estaria na lista de 180 mdicos que haviam entrado na Justia do Brasil pelo direito de assinar um contrato individual no Programa Mais Mdicos. Disseram que iam me colocar no primeiro avio para Cuba e que estavam avaliando invalidar meu diploma de medicina, conta. Eles ameaam sempre de forma verbal, no deixam registros, explica. Por no retornar para Cuba, Alioski foi expulso do Partido Comunista pela estrutura partidria montada pelos cubanos no Brasil.

ATUAOMdicos cubanos no Brasil acompanham hemodilise: trabalho sob vigilncia linha dura

Arrecadao

Qui o fato mais revelador de que os assessores da OPAS no passavam de comissrios polticos comandados pelo regime foi o mecanismo estruturado nas 27 unidades federais do Pas para a arrecadao mensal de uma contribuio partidria. No bastassem os 75% tungados dos respectivos salrios, os mdicos filiados ao Partido Comunista eram obrigados a entregar mensalmente no Brasil uma contribuio de R$ 24. O dinheiro era arrecadado em cada municpio e transferido para a conta do coordenador estadual, que por sua vez repassava os valores para a Coordenao Nacional em Braslia. Estima-se que, por essa via, os cubanos podem ter arrecadado no Brasil mais de R$ 1,7 milho extra, em nome do Partido Comunista. Operado sob sigilo total, o esquema era de conhecimento geral dos mdicos cubanos, mesmo entre aqueles no filiados ao partido.

Para falar do assunto, mantido a sete chaves, os coordenadores usavam cdigos. O dinheiro era Bola, Ma ou Pinhata e os militantes eram peloteros, termo usado em Cuba para designar jogador de beisebol, o esporte nacional. Uma amiga do Partido me explicou o significado do cdigo, que vi pela primeira vez em um e-mail enviado para todos os mdicos. Tambm tivemos algumas reunies de colaboradores em Porto Alegre e, no final, a coordenadora se reunia com seus peloteros, conta a Dra. Eva Maria Arzuaga Duanys, 44 anos, que mora em Barros Casal, Rio Grande do Sul.

Num grupo fechado de mdicos no Facebook, a revolta com a deciso cubana de deixar o Mai Mdicos extravasou e o sigilo partidrio foi quebrado. Os cubanos protestavam pelo pouco tempo fornecido a eles para organizar o envio dos pertences para Cuba, pela falta de dinheiro para transportar eventualmente uma carga e a ausncia de informaes sobre o traslado. Onde esto os nossos coordenadores? Para cobrar o dinheiro da contribuio do partido ligam pelo WhatsApp, mas para dar uma resposta que merecemos ningum aparece, escreveu uma mdica.

TEATRO DO ABSURDODepois de submetidos a humilhaes por consultores cubanos no Brasil, mdicos so recebidos com pompa por autoridades de Cuba (Crdito:MARCELINO VAZQUEZ)

Na conta de quem?

De 2013 a 2018, a OPAS contratou 120 desses consultores internacionais, conforme os Planos de Trabalho divulgados pela entidade desde 2014 e de um relatrio do Tribunal de Contas da Unio (TCU) que analisou os primeiros desembolsos do governo federal em 2013. Alm de apontar obscuridade na relao OPAS-Cuba, o TCU questionou a contratao de 20 assessores internacionais para os primeiros sete meses do programa, pelo salrio de R$25.000 por ms. O TCU pediu esclarecimentos sobre o papel deles no projeto, sendo que o Mais Mdicos j previa tutoria de profissionais brasileiros para os cubanos. O salrio dos consultores estava includo nos custos do Programa e era repassado pelo Ministrio da Sade OPAS no montante para pagamento dos bolsistas, passagens, dirias, seguros e ajudas de custo para a instalao dos mdicos nos municpios.

O BUNKERSede da OPAS no Brasil abrigava conselheiros que atuavam aqui a servio do regime cubano (Crdito:Divulgao/Kardel Producoes Fotograficas)

Sustentar a vigilncia opressiva cubana teria custado aos cofres pblicos R$ 52,1 milhes, transferidos OPAS como pagamento de assessores. De acordo com mdicos cubanos entrevistados, os coordenadores recebiam lquido R$ 11.800, o que indica que Cuba tambm aplicava confisco salarial aos seus homens de confiana. At maro deste ano, o Ministrio da Sade havia desembolsado mais de R$ 6,6 bilhes pela permanncia dos cubanos no programa. Considerando que a entidade regional ficava com 5% do lquido dos recursos, a OPAS faturou pelo menos R$ 330 milhes em cinco anos de Mais Mdicos.

Diferentemente do que acontece com os mdicos brasileiros e de outras nacionalidades, os cubanos recebiam apenas R$ 2.976,26 dos R$ 11.800 referentes bolsa paga pelo Mais Mdicos. A reteno salarial pactuada entre o governo petista de Dilma Rousseff e o regime de Cuba foi possvel graas ao mecanismo usado para a contratao dos cubanos.

De acordo com o 80 Termo de Cooperao Tcnica assinado pelo PT, a entidade ficou responsvel pelo fornecimento de profissionais de sade para atendimento da populao brasileira. Os cubanos chegaram ento ao programa no atravs de contratos individuais com o Ministrio da Sade, mas como parte de um acordo de cooperao entre a OPAS e Cuba. Segundo o contrato, o governo brasileiro entregava OPAS o valor total dos salrios e das ajudas de custo, que so repassados integralmente para Cuba. O governo cubano se encarregava de fazer a remunerao dos mdicos atravs de depsitos que saam da Embaixada de Cuba em Braslia. Cuba ficava com a maior parte da ajuda de custo oferecida pelo programa para a instalao dos mdicos participantes, alm de embolsar 75% dos vencimentos dos mdicos. O que sobrava do confisco constitua o prmio por suportar aqui, em solo brasileiro, as atrocidades tpicas do regime cubano perpetradas por agentes travestidos de consultores internacionais. Tudo pago com o nosso dinheiro.

PorJos Alberto Gutirrez
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